• Jussara Santos

A pior cor do mundo ou o homem que talvez nunca seremos


Dia desses, realizei uma atividade com alunos e alunas na biblioteca da escola onde leciono. Ao final, a bibliotecária presenteou meninos e meninas com marcadores de página. Esses marcadores eram de diferentes cores e traziam, além de informações sobre o uso da biblioteca, diferentes imagens e desenhos. Era um presente e foram distribuídos de maneira aleatória.

Nos surpreendemos então quando um de meus alunos voltou e pediu para trocar o marcador. Não haveria problema se fosse pelo desenho do super-herói preferido ou de um mutante, mas não. Ele disse: “-troca pra mim, esse é cor de rosa.” “- Qual o problema, o que que tem?" retrucamos. E ele afirmou: “- sou homem.”

Infelizmente, tocou o sinal (é sempre nessas horas, parece que o sinal adivinha!). Eles tinham outra aula e lá se foi ele, feliz com o outro marcador nas mãos. Talvez na ideia dele um marcador cor de macho.

Fui buscar a outra turma com aquela frase na cabeça e, ao mesmo tempo, triste por ver uma criança se descobrindo no mundo já com noção tão equivocada de masculinidade.

No outro dia, comentei nas minhas turmas, sem identificar o aluno, o ocorrido. Alguns e algumas saíram em defesa dele. Meninos afirmaram que não usam rosa, que rosa é cor de menina. Disseram que alguém deve, inclusive, ter zombado do colega, que acabou por trocar o marcador. É, eu não havia pensado nisso.

Assim, durante a conversa, na qual muitas meninas discordaram dos meninos e outros e outras permaneceram em silêncio, insisti: mas o que é ser homem, afinal? Ninguém soube responder, todos giraram em torno do mesmo tema, ou seja, ser homem é jogar futebol, não brincar de boneca e, principalmente, juro, leitores e leitoras, não usar cor de rosa. A cor quase que saiu com o título de a pior cor do mundo.

Nós educadoras e educadores sempre nos deparamos com situações difíceis de serem trabalhadas com jovens e adolescentes. É preciso muito cuidado ao lidar com pessoas em formação, pois forma-se para o bem, mas se forma para o mal.

A palavra de ordem hoje é respeito, o discurso vigente é: você pode não concordar, mas tem de respeitar. Desse modo, respeito a escolha do meu aluno pelo marcador não rosa, mas a atitude dele em pleno século XXI é preocupante, ela revela a persistência de uma série de preconceitos construídos em nossa sociedade. A partir de sua atitude, ouso dizer que ele é fruto de uma criação receosa de que os meninos da família gostem enfim de cor de rosa, símbolo de delicadeza e meiguice. Características que um homem, aos olhos de muitas pessoas, não deveria ter ou demonstrar.

Três homens fizeram parte da minha formação: meu pai, meu avô paterno e meu tio. Meu avô materno morreu ainda jovem. Nunca ouvi deles piadas preconceituosas, racistas, nunca ouvi expressões do tipo: “para de agir feito mulherzinha”, “viadinho” e tantas outras de teor violento e humilhante. Ouvi essas expressões na rua. Sou fruto de uma criação que também tinha seus preconceitos, mas que, com certeza, refletia sobre eles ou nos levava a refletir sobre. Um privilégio dirão.

Talvez sim, talvez por isso tenha me tornado educadora. Talvez por isso insista em passar para frente as muitas reflexões que me sustentam. Sendo assim, não precisamos repetir de maneira automática dogmas, tabus, preconceitos, ações, atitudes que a sociedade nos impõe.

Digo a alunos e alunas, digo a quem me lê que futebol há muito não é coisa de menino, meninas jogam bola muito bem, desde que gostem do esporte, desde que se identifiquem com ele, não são menos meninas por isso. Gays também praticam esportes com os quais se identificam e isso inclui o futebol.

Uma atriz grávida pela segunda vez postou um vídeo recentemente onde diz que agora espera um menino e que tudo será diferente, já que sairá do mundo rosa (ai o rosa!) e irá para o mundo do verde e do azul (as chamadas cores de meninos). Sairá do mundo das bonecas para o mundo dos super-heróis, para o mundo da capa e da espada. Século XXI, século XXI...

Alguém precisa avisar para algumas pessoas que heroínas sempre existiram na vida real e na ficção. Alguém precisa avisar que meninas são ótimas em física, química e matemática. Alguém precisa avisar que meninos podem costurar, meu pai era alfaiate, alguém precisa avisar que encher laje, trocar pneu, assentar tijolo não são coisas de homens. São atividades a serem desenvolvidas por qualquer um de nós que precise ou queira.

Quando você responsável por uma criança, seja família ou escola, não leva essa criança a pensar sobre o que ela diz e, principalmente, sobre o que ela não diz, você a mantém no mesmo lugar, que pode ser o eterno lugar da discriminação.

Não sei o que vocês leitoras e leitores desejam, eu desejo um mundo diferente, desejo um mundo onde não seja a cor rosa, azul ou verde que defina quem nós somos. Infelizmente, quando assisto homens se afirmando pela força impetrada sobre nós mulheres, quando vejo que homens ainda se unem para justificar o que o outro fez de errado, quando vejo as muitas mordaças colocadas em nossas bocas, penso no meu aluno e em seu marcador de página.

Nossas vidas são livros, cadernos e isso não é clichê. Em nossas páginas em branco cabem rabiscos, garranchos, desenhos, letras legíveis, códigos indecifráveis. Muitas páginas inclusive não aceitam nada, apenas o lugar do vazio. Em que página da vida então meu aluno deixará seu marcador não rosa? Torço pra que seja na página mais colorida e diversa da vida. Torço para que daqui a alguns anos ele se lembre da atitude dele e ria, pois terá entendido que o que diz de nós são nossas ações para com o outro. Ações respeitosas de verdade e não por modismo, ações reais, não ficcionais.

Caso ele se torne fruto de uma educação menos receosa, o que dele nascer terá menos medo ainda e seus frutos serão de fato, não fingirão que são. Caso ele absolva a cor rosa, caso a sociedade absolva essa cor é porque talvez tenham entendido a ilusão da qual o músico Gilberto Gil* nos falou um dia. Crer que ser homem lhe bastava, já que o mundo masculino a ele tudo daria, só lhe trouxe insatisfação, pois não se é nada sozinho. Na letra composta por Gil, a voz que fala no texto se descobre um misto de porção masculina e porção feminina.

Se meninos nascidos no século XXI forem educados para sustentarem a ilusão de uma força solitária masculina, educados para não cuidarem da própria roupa, para não arrumar cama, para não brincar de boneca, para não fazer comida, para não chorar e para não dizer que amam amigos, pais, tios, irmãos, gente nunca serão de fato.

Delicadeza, sensibilidade, cuidado é o que precisamos, é o que merecemos, homens e mulheres. Os dois substantivos que formam a palavra -marcador- carregam um peso grande: marca e dor. Cabe a nós escolhermos qual será o caminho de nosso aprendizado, o mais dolorido ou o mais cor de rosa do mundo?!


*Super-homem (A canção). Música surgida da inquietação do músico em relação à fragilidade masculina, diante do medo dos homens frente aos lugares de poder que as mulheres assumiram. Em 1978, no filme ‘Superman’, o herói mudava a rotação da terra por causa da ‘mocinha’, isso também serviu de inspiração para o músico. (http://gnt.globo.com/programas/papo-de-segunda/materias/gilberto-gil-conta-como-criou-musica-super-homem-inspirado-no-filme-de-1978.htm)




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