Quem precisa da Academia Brasileira de Letras?

September 1, 2018

 

Sobre a Academia Branca de Letras ou seria Academia de letras brancas ou brancas letras (?) não me surpreendi com o resultado da votação em torno da cadeira de número 07 e a não escolha da escritora mineira Conceição Evaristo. Embora tenha sido presidida, em primeiro, por um homem, escritor, intelectual negro - Machado de Assis - a Academia nunca abriu suas portas para escritores e escritoras negras. Machado de Assis, inclusive, nos era apresentado como homem branco. Mulheres escritoras na referida academia são apenas 07, se não estou enganada, nenhuma delas negra. O lugar da escrita literária ainda é um lugar machista e branco. O espaço da escrita literária ainda não é visto como um espaço ocupável por nós, mulheres e homens negros. Acredito que a não escolha de Evaristo se deva ao fato de que a escritora abalaria as estruturas daquela Academia. Digo isso sem medo, pois a história de Evaristo nos mostra o quanto essa mulher negra escritora é corajosa e, com certeza, cobraria da Academia um papel mais efetivo do ponto de vista das letras brasileiras. Cobraria um comprometimento com a diversidade literária brasileira, pois há escritores e escritoras indígenas também. Acadêmicos vestem seus fardões e se limitam a paparicos, chás, divulgação dos próprios trabalhos. Onde estão os projetos de alcance nacional em torno da leitura e da escrita desenvolvidos ou incentivados pela Academia Brasileira de Letras? Alguém conhece algum? Eu não. Em um país com número alto de não letrados, qual a contribuição da Academia para minimizar esse quadro? E quanto à atual conjuntura política brasileira, como a Academia se posiciona? Ninguém conhece essa Academia, ela não quer saber de nós meros mortais, ela não quer se comprometer. Sou professora e educadora e sempre li com meus alunos e alunas escritoras feito Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, recentemente um ex-aluno disse à esposa: "deixa eu te apresentar a professora que me ensinou a ler Lima Barreto". Esses escritores e tantos outros e outras que seguem produzindo textos de qualidade ou que serão descobertos por nós ainda já são imortais para nós leitores e leitoras negras e farão parte de uma futura Academia Negra Brasileira de Letras, por quê não? Quando assisti à peça O Topo da Montanha com Lázaro Ramos e Taís Araújo, uma das falas da personagem de Araújo girou em torno de nós negros termos nossas escolas, nossas academias, nossas e nossas... Sempre que digo isso, alguém fala: pregando separação? O que você fará com suas amigas e com seus amigos brancos? Respondo: não proponho separar o que já está separado desde sempre, em diferentes instâncias. O que existe é um medo de se assumir isso. Quanto aos amigos e amigas brancas, inclusive àqueles que adoram enfatizar a mistura brasileira, mas desde que o lado branco da mistura é que seja destacado, deixo a pergunta: e se um dia a coisa se radicalizar mesmo, se houver um incentivo, como temos visto no mundo, à separação, se eu, negra, estiver do lado massacrado, você fará o quê? Me negará três, quatro, cinco vezes, ressaltará sua branquitude ou caminhará ao meu lado ou caminhará comigo? Pense nisso.

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