Reino do Entusiasmo

July 6, 2016

 

A ESCRITA E O REINO DO ENTUSIASMO

 

[1]Jussara Santos

           

            Vou quase começar pelo começo...Eu sempre gostei de inventar histórias. Inventava muitas. Sempre fui uma criança pouca comportada, fazia muita confusão, bagunça mesmo. E eu tinha de justificar todos os meus atos, digamos, “impróprios”. Então, eu sempre tinha uma história pra contar para minha mãe e para o meu pai. Nem sempre eles acreditavam, mas...

            Na minha casa, as histórias que inventava eram ouvidas pela família, comecei a formar público ali. Vejam só, eu já tinha ouvintes naquela época! Esse acolhimento foi muito importante.

            Mas, essa facilidade para criar histórias e contá-las desenvolvi convivendo com minha avó materna. Hoje sei de sua importância na minha trajetória como escritora. Eu tenho três irmãs, sou a caçula e ficava com minha avó, enquanto meus pais trabalhavam e minhas irmãs iam para a escola. 

            Minha avó, despretensiosamete, me orientou no caminho das letras. E isso é interessante porque ela estudou muito pouco. Aliás, a pouca escolaridade é marca de muitas famílias pobres brasileiras. Meus pais também frequentaram pouco a escola, meus avós paternos também. Porém a pouca escolaridade não foi nem é sinônimo de pouco conhecimento, de pouco saber. Meu avó paterno, por exemplo, era músico, tocava violão. 

            Minha avó lia poesia pra mim. Por isso brinco que passei por um processo de “alfabetisia”. Alfabetização através da poesia. Um dos poemas que líamos traz algumas interrogações e uma resposta que, hoje, acredito, foram fundamentais para minha opção pela escrita. O poema é de Antero de Quental e seguem alguns versos aqui:

 

“Que te diz a natureza,

A despedir-se saudosa,

Findo o dia?

 

Quando a noite é mais formosa

E o luar tem mais beleza?

- Poesia. (....)”[2]

 

            Assim, creio que a poesia impregnou minha vida e está em cada uma das muitas linhas desenhadas nas minhas mãos.

            Outro aspecto importante na minha trajetória como escritora é o gibi ou histórias em quadrinhos. Na minha casa, sempre lemos muito. Tínhamos coleção de gibi e aquelas histórias faziam parte do nosso processo de alfabetização.

            Penso que a minha escrita está, portanto, diretamente ligada ao ouvido, aos sons, e a diferentes leituras, leitura de mundo, leitura de gente, leitura de imagens.

            A escola é também um elemento importante. O conhecimento que trazia da minha casa foi acrescido do conhecimento escolar. Li muitos livros traduzidos, já que a literatura nacional era pouco trabalhada na escola. Li Jane Eyre (Charlotte Bronte), O Pequeno Lorde (Frances H. Burnett), Sem Família (Hector Malot), Robinson Crusoé (Daniel Defoe) e vai por aí... Eu lia tudo que me caía às mãos.  A literatura nacional só chegou na adolescência ou quase na adolescência. Até então só lia texto traduzido ou recontado.

            Mas houve um livro que me chamou atenção. Chama-se “À beira do riacho”[3]. É de uma escritora norteamericana: Laura Wilder. Esse livro, carregado de imagens que, na época, para mim, incríveis, me fez ver a literatura de uma outra maneira. Pensei após a leitura: eu posso falar de mim.             A ideia de escrever, de ser escritora começava a ser desenhada ali. Foi uma sementinha. Com o passar do tempo, comecei a ler a literatura nacional. As produções brasileiras. Me encantei com os poetas, com escritores como Drummond. Mas uma coisa me angustiava: eu não me via na maioria dos textos que lia. Semelhante ao que vivenciou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie:[4]

“(...), eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são.”

            Porém, ao contrário dela, não tive acesso a escritores negros. Nem africanos, nem brasileiros. Escritoras muito menos. O escritor negro brasileiro que a escola apresentava era Machado de Assis e, ainda assim, não era apresentado como negro.

            Durante muito tempo as imagens negras que li eram aquelas associadas à negatividade: maldade, feiúra.  Eu li o negro escravizado e submisso, o chamado pai João, a ama de leite, a empregada que satisfaz o patrão e o filho do patrão, li o negro bandido, a mulata gostosa, li uma série de estereótipos em que o negro sempre foi fixado. Logo, não li o negro como protagonista, não li o negro como sujeito agente, não li o negro como gente.

            Então, essa literatura, uma produção literária que apresentasse o negro como protagonista, que agora vem sendo divulgada nas escolas, não fez parte do meu universo quando criança e adolescente. A divulgação que se tem hoje no Brasil dessa escrita é fruto da batalha dos próprios escritores negros ou afrodescendentes e de estudiosos que se dedicaram e se dedicam a estudar esse tema. Meus alunos, hoje, negros, brancos, índios têm uma gama de possibilidades de leituras onde a diversidade se faz presente. Eu fui ter contato com essa produção já adulta, entrando pra faculdade, quase.

            Nessa minha trajetória quero falar a partir do lugar que ocupo na sociedade. Esse lugar é o de mulher, negra, brasileira. Isso não significa panfletagem. A literatura, pra mim, não está solta, no vácuo. Ela parte de algum lugar e, no meu caso, do meu lugar. Se tantos personagens podem existir porque não personagens negros, índios entre outros.

            Eu me lembro que, nas festas da escola, quando pequena, tínhamos de fazer homenagens aos pais (dia das mães, dia dos pais). Geralmente fazíamos álbuns para presenteá-los. E era uma luta fazer esse álbum, lá em casa, porque as imagens que nós encontrávamos eram de mães e pais brancos que não tinham nada a ver com os nossos pais. Quando encontrávamos imagens de pessoas negras eram em situações vexatórias. Hoje, eu acho interessante que existam revistas dedicadas ao público negro. As crianças, os adolescentes negros, eles têm de se ver representados de forma positiva também.

            Isso vale para a literatura. Hoje já se lê muito pouco na escola. A leitura na escola vai bem até uma faixa etária depois despenca. Há ainda a leitura de entretenimento que tanto os adolescentes gostam. É positivo, mas é preciso apresentar também uma literatura mais indigesta, essa também é importante.

            Certa vez, o escritor Marcelino Freire, em entrevista à Folha de São Paulo, disse que “confortável deve ser a cama, não a literatura”[5]. É preciso conhecer essa literatura do desconforto. Uma literatura que mostra outras realidades, que faz pensar sobre o lugar das pessoas no mundo.

            O Brasil tem medo de radicalizar, ou seja, medo de ir à raiz de seus problemas e isso já se faz urgente. Pensando em uma das palavras que norteiam esse Colóquio, a palavra transgressão, vejo a literatura como espaço para transgredirmos sempre. Não devemos temer a literatura. Já somos podados todos os dias, que ela nos ofereça o espaço da libertação e da catarse.

            Encerro com a palavra entusiasmo que dá título a essa apresentação. Vem dos gregos essa palavra e significa “ter um deus entro de si”[6].  Entusiasmada, ou seja, “preenchida” por um deus, a pessoa transformava tudo que estava a sua volta. Entusiasmados, acreditavam os gregos, podiam vencer a falta de sabor do cotidiano, podiam modificar a realidade.

            Contista, poeta, escritora, professora, educadora, filha (de Conceição e José Luiz), neta (de Ercília, João e Joaquina), irmã (de Iara, Jupira, Juraciara, Jacira*), mulher, mas, acima de tudo, entusiasmada. Entusiasmada com a vida...o entusiasmo traz o sucesso e não o contrário, ainda segundo os gregos.

            Assim, escrevo sempre, escrevo sempre que todo dia, escrevo para muito além de holofotes, meros retratos na parede. Escrevo para mim, para você e para quem mais quiser ler, ouvir e engrossar o coro dos entusiasmados.

* in memorian

 

 

 

[1] Contista, poeta. Professora de Língua portuguesa e Literaturas de língua portuguesa. Autora de: De flores artificiais (contos/2000), Minas em mim (Prêmio BDMG-Cultural de Literatura – Poesia/2005), Com afagos e margaridas (contos/2006), Indira (novela infanto-juvenil/2009).

 

[2] In: livro do acervo da autora. p.20

 

[3] Wilder, Laura Ingalls. À beira do riacho. Coleção Carolina. Tradução e adaptação: Luiz Fernandes. 3ª edição. Record. Rio de Janeiro. s.d.

 

[4] www.ted.com/.../chimamanda_adichie_the_danger_of...6 out. 2009 

 

[5] In: Folha de São Paulo. 16/08/2009. Caderno Mais! p.7

 

[6] http://www.palavrasiluminadas.com

 

 

 

 

Abaixo algumas fotos da infância de Jussara:

 

 

 

 

Fotos de Jussara em uma viagem ao Espírito Santos:

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

"Mas isso não é uma mulher, é uma mulata"

March 15, 2017

1/1
Please reload

Posts Recentes

August 5, 2019

October 21, 2018

September 21, 2018

January 16, 2018

October 9, 2017

October 1, 2017

September 4, 2017

June 22, 2017

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags